Estilo de vida da
criança na sociedade ocidental - Primeira parte
Marisa Alvim
O estilo de vida da sociedade ocidental está voltado para um consumismo, um conforto,
uma concorrência desenfreada, e assim nossos pequenos já são vítimas desde cedo.
Poucas semanas após o nascimento do bebê, as mães têm que voltar ao trabalho; as
criancinhas são depositadas em creches ou berçários, onde suas necessidades básicas
são atendidas - mas, até mesmo pela impossibilidade de atender a um número maior de
crianças ao mesmo tempo, muito de seu desenvolvimento motor deixa de ser estimulado.
Chegando em casa, os pais têm de cuidar dos afazeres domésticos; nada mais prático do
que a "babá eletrônica" para terem sossego. A vida nas grandes cidades, devido
às distâncias a serem percorridas e à violência reinante, torna o uso do automóvel
uma necessidade, não permitindo que as crianças brinquem na rua. Muitas famílias
residem em prédios de apartamentos, muitas vezes restritos, onde a criança não tem
espaço para treinar sua motricidade e, para que fique ocupada, assiste à televisão ou
brinca com videogames. Neste último caso ocorre realmente muita atividade (na tela),
enquanto a própria criança se especializa em executar movimentos mínimos, robotizados,
com seus dedos.
Por outro lado, na cultura dos sintéticos os sentidos não se desenvolvem: os
brinquedos de plástico (duro, frio, liso) não desenvolvem o tato; alimentos muito
industrializados têm sabor muito parecido, quando não químico. Já os ruídos em alto
volume danificam o órgão auditivo; além disso, quase não se distinguem nuances de
cores (já houve povos que conseguiam distinguir centenas de tonalidades de
vermelho ); e, muitas vezes, nem mesmo numa floricultura se sente o perfume das
flores, eliminado pelo cultivo cheio de substâncias químicas, isso sem falar nos odores
de uma grande cidade, que paralisam o olfato em vez de estimulá-lo. Aquilo que deve ser
desenvolvido nessa faixa etária - a motricidade grossa e fina, bem como os órgãos dos
sentidos - não recebem o alimento necessário, e sabemos que órgãos não-utilizados se
acabam atrofiando.
No segundo setênio (7 a 14 anos), as crianças geralmente recebem um ensino
intelectual, conceitual, pouco vivencial, e, em vez de se interessarem pelo mundo, acham a
escola chata e trabalhosa. Exige-se delas o que elas nem têm condições de dar - porque
a abstração faz parte do terceiro setênio (14 a 21 anos) -, e deixa-se de desenvolver
as capacidades nascentes, criando pessoas com grandes dificuldades ou até incapacidade de
desenvolver e lidar com os sentimentos.
Com muita freqüência também se estabelece a concorrência (afinal, "a vida é
assim mesmo"): cada um quer (ou espera-se dele que queira) ser melhor do que o
coleguinha, e em vez de se desenvolverem habilidades sociais criam-se pessoas egoístas,
que antes de tudo pensam em seu proveito, mesmo que para isso tenham que arruinar o outro.
Além disso, as crianças ficam expostas aos horrores do mundo, da sociedade, à crueldade
e à violência, tanto na vida real como principalmente pela mídia - e, em vez de belo, o
mundo lhes parece bem horrível.
É verdade que não podemos nem devemos criar as crianças numa redoma; mesmo assim,
podemos protegê-las de um excesso de vivências negativas, pois algumas são
inevitáveis. Um erro bastante comum é deixar que no segundo setênio as crianças tomem
decisões e sejam responsáveis pelo que fazem. Nessa faixa etária, ainda são os adultos
que sabem o que é bom para elas ou não, e no fundo de seu ser a criança ainda espera
ser dirigida por eles, sem muitas explicações, desde que possa confiar nesses adultos.
Por outro lado, aos poucos ela pode sentir que suas atitudes têm conseqüências.
Um outro aspecto que chama a atenção, atualmente, é o tipo de lazer que as crianças
do segundo setênio têm tido: parecem ser atividades que ainda trinta, quarenta anos
atrás cabiam ao terceiro setênio. Se hoje uma criança vai a bailinhos aos nove anos,
começa a "ficar" com dez, o que lhe restará fazer quando tiver quinze ou
dezoito anos de idade? Se entre sete e catorze anos ela já passou por todas as emoções
possíveis (apropriadas ou não para a faixa etária), que tipo de emoção irá procurar
na adolescência? Por que tantos jovens praticam esportes radicais? Por que buscam
experiências de "quase morte", deixando-se cair dezenas de metros, presos a um
cabo elástico? Por que jovens de classe média assaltam, matam e ainda dizem ter estado
apenas "brincando" ou querendo saber qual é a "sensação de matar
alguém"?
No terceiro setênio, o adolescente encontra-se numa fase em que deixou de ser criança
e ainda não é adulto - uma situação realmente complicada. Sua autoconsciência
desperta aos poucos, ele sente grande insegurança e necessita de muita compreensão do
adulto. Ele começa a dar-se conta de que as gerações anteriores, em vez de melhorarem o
mundo, estão a destruí-lo, de que as relações sociais e familiares estão em ruínas,
as perspectivas profissionais são pequenas, o desemprego aumenta diariamente e assim por
diante. Ele tem tanta força, tanta vontade de mudar as coisas, mas falta-lhe a
experiência de vida, e ao tomar atitudes intempestivas é, freqüentemente, mal
compreendido. Onde está o mundo verdadeiro? Ele busca ideais - aliás, tem grande
necessidade deles, pois quer e precisa lutar por algo -, mas será que os adultos, tão
envolvidos consigo mesmos, conseguem interessá-lo em verdadeiros ideais? Querendo ser
adulto, ele reivindica (e freqüentemente consegue) muitos "direitos" próprios
dos adultos, como obter carteira de motorista aos dezoito anos (até pleiteando que seja
possível aos dezesseis), ter direito a voto (de que tipo de discernimento e julgamento
ele é capaz, se ainda está desenvolvendo essas capacidades?), mas também lhe são
impostos certos "deveres" dos adultos, como o serviço militar. Por outro lado,
em nosso país o casamento antes dos 21 anos ainda exige autorização dos pais
Será que não é por falta de ideais nobres que o jovem acaba criando ídolos para
poder "adorar" (cantores, esportistas, gente que consegue realizar algo)? Os
movimentos sociais, o movimento hippie dos anos 60, as revoltas estudantis de 1968, o
movimento ecológico, a recusa de prestar o serviço militar, o Greenpeace, são alguns
dos exemplos das lutas empreendidas pelos jovens neste século, alguns ideais pelos quais
até chegaram a dar suas vidas. Justamente quando deveria estar tomando decisões
importantes sobre o encaminhamento de seu futuro, o jovem não vê sentido no que o mesmo
futuro lhe oferece, se é que lhe oferece algo. Como suportar tudo isso?
(Continua)