
Competitividade
Ely Ramos e Marcia Henriques
Transformarei os meus pontos fracos em pontos fortes mediante contínuo
esforço de auto-transformação e aperfeiçoamento.
Caruso Samel, Pensamentos para bem viver, p. 17
Em maior ou em menor grau somos todos competitivos, pois vivenciamos
em um mundo onde a competitividade está presente por toda parte.
Através da competitividade, pensamos estar cumprindo a nossa missão,
só que muitos a usam com mais intensidade que outros, centrando nela
todo o seu empenho individual ou construindo organizações competidoras
poderosas.
O cuidado deve estar na intensidade e o que define a intensidade é a
nossa vontade do quanto queremos ser competitivos ou do quanto
queremos ter de bens materiais. Essa intensidade deve primar pelo bom senso e honradez,
pois devemos observar e analisar como a competitividade nos pode ser benéfica, bem
como, ao nosso semelhante, partindo do princípio de que quem bem faz
para si o faz. Portanto, a competitividade é saudável desde que
saibamos respeitar o nosso semelhante e usá-la com ponderação e
moderação.
Competir é melhor que deixar de fazê-lo. A pessoa competitiva deve
encarar as circunstâncias e entender com aceitação tanto a vitória
como a derrota, quando aquela não se tornar possível.
Daí, a competitividade se torna uma faca de dois gumes quando
aplicada sem o necessário conhecimento da vida. Como o progresso de
certas pessoas depende do fracasso de outras, aquele que se julga mais
forte pode querer ultrapassar os limites do respeito ao seu semelhante.
A competitividade é natural no mundo em que vivemos. Todavia, seria
muito desejável que a competitividade pudesse andar lado a lado com a
humildade, compreensão, esclarecimento espiritual e respeito, a fim de
que fosse possível a aceitação e compreensão, quando ocorressem perdas
e satisfações múltiplas quando houvesse vitórias.
A competitividade baseia-se na capacidade de satisfazer as
necessidades e expectativas de cada pessoa. Contudo, o que lamentamos
é que muitos não medem esforços e nem olham obstáculos passando por
cima de tudo e de todos com intuito de atingir seus objetivos. É claro
que tal atitude, encontrada em muitas pessoas, transforma a
competitividade em uma bengala para apoiarem-se quando não conseguem
refrear suas ambições.
Parte desses conflitos tem a ver com a maneira de como reagimos à
competitividade e, também, com a maneira com que ela nos afeta, pois
freqüentemente ela é vista como sendo a obtenção de uma rentabilidade
igual ou superior à de nossos semelhantes. Na verdade, falta aos
envolvidos o suporte do esclarecimento espiritual a fim de
compreenderem que a competição pode ser saudável, pois o sol brilha
para todos!
A competitividade está presente em quase toda parte. Dentro de todos
aqueles que conhecem o campo da espiritualidade, a competição se torna
saudável e se transforma em colaboração múltipla. Aqueles que estudam
e se esclarecem estão bem cientes que, para nossa estrela brilhar, não
precisamos apagar a estrela de ninguém. Sabemos muito bem que existe
dentro de cada ser esclarecido um desejo de retribuir a felicidade
àqueles que conosco colaboram, não cabendo aqui o egoísmo daqueles que
só a querem para si mesmos.
Desta forma, o ser esclarecido sente um imenso desejo de dividir o
que aprende e a repassar a todos os momentos felizes que vivencia,
respeitando sempre as opiniões, os pontos de vista e principalmente o
livre-arbítrio de todos com quem convive.
Os seres esclarecidos espiritualmente não temem coisa alguma, muito
menos que alguém venha tomar os seus espaços onde quer que estejam,
porque sabem que tudo que precisam é serem cumpridores de seus deveres
e obrigações.
É no trabalho e nos esportes que a competitividade se faz mais
presente. É nesses ambientes que os sentimentos de afeto e amizade
deveriam envolver harmonia e concórdia; contudo, ao contrário, é
neles que ocorrem as maiores discórdias e inimizades porque os
envolvidos não sabem respeitar uns aos outros.
Quando pensamos em um local de trabalho, logo nos vem à mente a
competição. Ah, como seria bom se nesse ambiente a competição fosse
saudável e acolhedora, como o é nos esportes, onde ganhar ou perder
são bem aceitos, coisas naturais da vida!
Procurem, então, mostrar os seus talentos sem ambicionarem a posição
de outrem e sem pisar nos menores. Pelo contrário, estendam as mãos sem
receio de que aqueles que estão aparentemente abaixo na escala
hierárquica venham subir os degraus de acordo com seus merecimentos.
O talento aflora espontaneamente sem precisar ser ostentado. Com
isso, muitas vezes, a competição é explorada, até mesmo
inconscientemente, por seres menos dotados de caracteres e atributos
e com desenvolvimento abaixo da média, daí resultando uma
competitividade negativa. Os mais conscientes e mais voltados para o
bem geral e união dos seres passam a observar e contrabalançar essas
características. Os que agem com o desejo consciente de cooperação,
acabam tornando-se os verdadeiros líderes.
Quando os habitantes deste mundo estiverem mais esclarecidos
espiritualmente, todos compreenderão que cada um tem seu espaço, pois
somos todos criaturas únicas, somos espíritos com individualidade
própria em evolução e cada um com capacidades e habilidades
diferenciadas.
Só existe uma espécie de cada um de nós neste mundo; até mesmo entre
os gêmeos a competitividade deve ser dispensada. Apesar da aparência
física que portam, gritantes são as diferenças na personalidade e
muitas vezes até no caráter de cada um. Assim, a competitividade pode
até ser saudável quando sabemos ganhar e perder, quando compreendemos
que a vida não é feita apenas de vitórias e que, às vezes, perdemos
mais que ganhamos, materialmente falando.
Quando pensamos em esportes, a primeira idéia que surge, também, é a
da competição. Tem sido cada vez maior o número de vítimas de
agressões físicas e verbais, principalmente em competições esportivas,
por pessoas que não sabem perder e acham que precisam sempre ganhar,
não aceitando, de vez em quando, as derrotas.
O ganhar sempre é uma forma de aprendizado. As
derrotas também nos ensinam muito, e isso deve servir de lição para
as pessoas que só se sentem bem se ganharem a qualquer custo.
Infelizmente, muitos pensam que o palco da vida é um cenário somente
para vitórias de uns e aparentes perdas para outros. No entanto, em
qualquer lugar que tenhamos que lidar com mais de uma pessoa, já
encontramos a possibilidade de ser de difícil trato, pois ali
encontramos pessoas de vários níveis espirituais, de categorias
completamente diferentes.
Somente moldando a nossa identidade, educando e esclarecendo nosso
espírito estaremos em condições de proporcionar-nos conforto
compatível com o desafio assumido. Assim, possibilitamos a execução de
atividades, facilitando o relacionamento entre as pessoas e tornando o
ambiente tranqüilo. Isso possibilita criar expectativas de crescimento
e bem-estar a todos que acreditam que nem tudo está dentro do nosso
controle e que, nem sempre, temos o domínio de tudo.
Gostaríamos de terminar afirmando que todos nós temos o poder de
influenciar positivamente nesse ambiente e no relacionamento com e
entre as pessoas. E, mais que isso, podemos transmitir o impulso de bem
querer aos nossos semelhantes, desejando a todos o mesmo que desejamos
para nós, pois não são somente os mais fortes ou influentes que
sobrevivem. Muitas vezes, os últimos serão os primeiros!
(Colaboração de Caruso Samel)
Petrópolis, Julho 2011
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