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O fim de uma existência

Heloisa Ferreira da Costa

Todo ser humano sabe que sua passagem pelo planeta Terra tem hora para terminar, que a ordem natural das coisas é nascer, crescer, amadurecer e morrer. Os espiritualistas encaram o fim de uma vida muito mais facilmente do que os seguidores de alguma religião. Estes estão sempre preocupados em não se separar dos seus por pensarem que nunca mais os verão, ou que o encontro será muito chato num céu inóspito ou numa caldeira infernal.

O espiritualista é convicto de que o espírito é eterno, que está neste mundo fazendo sua evolução, que escolhe a família, mesmo sabendo por que a família espiritual é outra, mas, ainda assim, qualquer despedida é sentida, porque desconhecemos o tempo astral.

Nunca estamos realmente preparados para o fim, por quê? Porque este ser que vai partir carrega parte de nossa história. Alguns apegam-se às pessoas por sentimentalismo, por falta de uma vida própria, ausência de trabalho, medo de mudança, amor demais... Sejam quais forem as razões, se analisadas pela visão espiritual, não têm sentido. Isto não quer dizer que será fácil, o sentimento faz parte do ser humano, mas não podemos ser egoístas; quando o físico está muito debilitado, a evolução estaciona e o apego à matéria faz do corpo a prisão do espírito.

É preciso aprender a deixar ir! Aos 40 anos, a maior tristeza é ver os pais com 80, pessoas que antes foram fortes, ágeis, firmes, bonitas, resolutas, independentes, mas que, atingidas pelo tempo e deterioração do físico, tornam-se frágeis, distantes, totalmente dependentes de cuidados especiais. É muito triste, mas faz parte da vida.

Acredito que aquilo que o ser mais preza no seu eu material lhe é tirado para depurar seu espírito. É só olhar para os mais idosos e observar, depois olhar para si e reconhecer aquilo que lhe é mais caro, fisicamente, por exemplo: beleza, arrogância, independência, poder. Se a auto-estima estiver exacerbada, a força da natureza trará à realidade de nossa pequenez, e diante das limitações da matéria seremos impotentes. Analisando tudo isso, deve-se concluir que o melhor é procurar corrigir, tirar a máscara da invencibilidade e procurar usar o corpo físico da melhor maneira possível no processo de aprendizagem, para se chegar ao fim com um mínimo de dignidade.

Quando se pensa a própria morte, como uma possibilidade real? Das duas uma: quando jovens acometidos de algum mal tido como fatal, na velhice pela mesma razão ou por consciência do tempo possível neste plano. Caso contrário não pensamos nem cogitamos, e esperamos que ela esteja o mais longe de ocorrer.

Às vezes, me imagino velha. Gostaria de poder chegar ao fim com uma certa lucidez, de seguir os passos de minha avó, abrindo e fechando as janelas de uma Casa Racionalista Cristã, de não esquecer as palavras das irradiações, de poder estar com minhas sobrinhas e suas famílias que serão criadas, irmãos e cunhadas, primos e amigos, e, o mais importante, reconhecê-los!

Lembrar dos jogos de tênis, das caminhadas, das pizzas, das reuniões, brincar na hora do parabéns para não deixar ninguém chegar na parte "cada ano que passa ela fica mais velha!", e chorar de rir, poder ensinar aos mais jovens a paciência de esperar o tempo consertar o que parecer estar errado.

Não sei quanto tempo ainda tenho junto aos que amo e de quem, pela lei natural e imutável, devo me separar, mas aprendi que não existe preparo possível para o momento mesmo quando esperado. Aprendi também, depois de muito refletir sobre as perdas dos entes queridos, que a razão será sempre atropelada pelo amor!

A autora é Militante da Filial Marília, SP

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